MÁRIO BRANCO (Barreiro, 1957)
Dedica-se em exclusivo à pintura desde 1994
Exposições Individuais:
1995 Galeria de Arte Faul, Lisboa
1996 Galeria Forúm, Barreiro
1998 Galeria de S.Bento, Lisboa
1999 Galeria Raquel Prates, Cascais
2003 Instituto Camões, Lisboa
Edição de Serigrafia pelo CPS (1998)
Participação na Bienal de Paris “GRANDS ET JEUNES D' AUJOURD' HUI, 1998” (Selecção do Júri) 
|
...Trata-se de uma abordagem ao poeta que não recusa, antes aceita e acolhe, abertamente, o carácter muitas vezes contraditório expresso na sua obra.
....O fenómeno da heteronímia não resulta, no caso de Pessoa, de razões formais exógenas à essência do processo de criação, antes corresponde à intima natureza psíquica do poeta.
....Essa aparente ambiguidade não a recusou Pessoa e, desse modo, produziu a mais eloquente manifestação de (in)coerência.
....Afinal, é o que somos: múltiplos e contraditórios sob uma una aparência.
DA CONCEPÇÃO PALIMPSÉSTICA
Conceito com origem numa prática usual na Índia que consistia, em razão da escassez de recursos, na reutilização do suporte escrito após a aplicação de uma goma-laca.
Devido às sucessivas reutilizações estes suportes foram, com o decorrer do tempo, revelando algumas particularidades como, por exemplo, a constatação de que, a cada recobertura sobrevinham, invariavelmente, alguns vestígios da escrita anterior. Tal facto, aliado á desconexão verificada entre os assuntos objecto de escrita propiciou, gradualmente, a emergência de uma escrita repleta de novas e surpreendentes significações.
DA TRANSPOSIÇÃO DO CONCEITO PALIMPSÉSTICO PARA A PINTURA
A transposição deste conceito para o âmbito da pintura tem, naturalmente, três consequências distintas:
- Permite, pela coexistência de signos provenientes de intervenções distintas, um novo simbolismo dos mesmos por via da recontextualização.
- Permite, pela morosidade do processo criativo, que as obras contenham o tempo como uma das dimensões estruturantes do processo.
- Permite, na minha opinião, a adequação entre, por um lado, a natureza deste específico processo de criação e, por outro, a natureza da nossa própria humana existência.
Uma obra de arte pode fornecer, em certos casos, aquilo que usualmente designo por código genético da alma, quer do seu autor quer, também, do seu casual fruidor.
É, justamente, esse código que confere á obra a sua impressão psicológica sendo aí que, a meu ver, se deve procurar a coerência da obra. Com efeito, tal desiderato é da ordem interna do conteúdo e não, como muitas vezes se assiste, da ordem externa da forma.
Procuro, através da obra, propiciar um encontro com o observador, quer para além da penumbra do inconsciente quer, também, da hipotética clareza do intelecto.
Com efeito, tanto a ausência como o excesso de luz me pareceram, sempre, óptimos caminhos para a cegueira.
Com o meu trabalho busco partilhar algo seminal: um momento de esquecimento traduzido na possibilidade de, pela emoção estética, se dispor de uma espécie de suspensão temporal, isto é, a oportunidade de recobrar o fôlego.
Mário Branco |