BARBARA SPIELMANN
Née le 16.12.1942 en Allemagne, de nationalité française.
Installée à Feital, Portugal, où elle a participé au dernier symposium “Écriture et dessin “ organisé par Maria Lino en 2006 et 2007.
Vies antérieures à Strasbourg (études littéraires),
Paris (1967-82), New-York (1982), Amsterdam (1982-86), Tavira (création de la Casa Museu Alvaro de Campos avec Vítor Pomar) (1986-1990), Lisbonne (1990-98), puis à nouveau Paris (1998-2007).
Principalement lectrice, rédactrice et traductrice littéraire (allemand /français) pour divers éditeurs parisiens (Lettres-Nouvelles, Buchet-Chastel, Grasset, etc…).
A publié des textes poétiques pour la revue “Dirty”(1978-80), aux éditions “Lieu commun” (1982), traduits en allemand (chez Goldman, en 1984). A écrit le texte de la pièce “Domus” pour le théâtre de Will Spoor, création à Amsterdam (1986).
A réalisé des courts-métrages expérimentaux (poèmes filmiques) entre 1977 et 85, en super 8 et en 16mm (subvention du G.R.E.C.), présents à divers festivals en France et à l’étranger. Reportés en DVD en 2005, ils ont été projetés à Paris dans divers lieux ainsi qu’à Lisbonne dans la galerie de Luis Serpa en Mai/Juin 2005 et au TMG de Guarda em Décembre 2008. |
BARBARA SPIELMANN
De nacionalidade francesa, nasceu na Alemanha a 16.12.1942.
Reside actualmente no Feital, Beira Alta, Portugal, onde participou no Symposium "Escrita e Desenho" organizado por Maria Lino em 2006 e 2007.
Anteriormente viveu em Estrasburgo (estudos literários), Paris (1967-82), Amesterdão (1982-86), Tavira (criação da Casa-Museu Álvaro de Campos com Vítor Pomar), (1986-90), Lisboa (1990-98), e de novo em Paris (1998-2007)
Trabalhou sobretudo como leitora, redactora e tradutora literária (alemão/francês) para diversos editores parisienses (Lettres-Nouvelles, Buchet-Chastel, Grasset, etc…).
Publicou textos poéticos na revista "Dirty" (1978-80), nas edições "Lieu Commun" (1982), traduzidos para alemão (Goldman 1984). Escreve o texto da peça "Domus" para o teatro de Will Spoor, criação em Amesterdão, 1986.
Realizou curtas metragens experimentais (poemas fílmicos) entre 1977 e 85, em Super8 e em 16mm (subvenção do G.R.E.C.) que estiveram presentes em diversos festivais em França e no estrangeiro.
Uma vez digitalizados em suporte DVD, 2005, foram projectados em Paris em diversos locais, assim como em Lisboa na Galeria de Luís Serpa, Maio/Junho 2005 e no TMG da Guarda em Dezembro de 2008.
|
A exaltação do corpo
Este surpreendente conjunto de filmes experimentais, ou “poemas fílmicos”, como a sua autora, Barbara Spielmann, gosta de designar, a cuja exibição cronológica vamos assistir, compreende cinco curtas-metragens concretizadas num período entre 1977 e 1985, que embora parecendo objectos cinematográficos isolados, podem situar-se inteiramente numa cinematografia experimental, não só ligada à literatura, mas também às artes plásticas e performativas.
Assumidamente não cinéfila, “por não poder suportar a violência desta linguagem”, a autora vê como acha que se deve ver o que se quer ver, e numa abordagem original, vai construindo narrativas rigorosas, sem porém contar uma história no sentido clássico, reclamando do “observador” a construção de uma relação com o próprio discurso fílmico.
Vagueando num universo peculiar, a autora parte para a construção de elegantes atmosferas, numa inteligente mise en scéne, que num justo ritmo impresso pela montagem, fazem com que o sentido da narrativa se adquira pela via de paralelismos e repetições, numa estrutura visual voluptuosamente coreografada, onde os elementos da literatura se envolvem com os das outras artes, estabelecendo um fundido coerente e harmonioso, revelando um perfeito entendimento da essência do fluxo cinematográfico.
Neste conjunto de filmes, que partem quase sempre de uma ideia literária, onde os títulos assumem especial relevância, pois parecem conter em si mesmo as próprias obras, distinguimos La substantifique, Autodaphné e Andacht, por considerarmos que esta “trilogia”, se assim nos é permitido designar, é percorrida por um tema comum – a exaltação do corpo. E, objectivamente, de um corpo total, onde a própria matéria é a transportadora da vontade, do desejo, do prazer, mas também do medo e da morte.
O primeiro filme, “La Substantifique”, trata exaustivamente a primeira matéria de um corpo – a carne. Era necessário começar pela substância fundamental. A própria autora, para o indicar com precisão, cita parcialmente no título uma expressão de Rabelais “la substantifique moëlle”, que remete para a necessidade de chegar ao mais profundo da substância, ao seu âmago, a um certo limite essencial.
Assim, em total silêncio, somos confrontados com pedaços da “substância”, a ocuparem a totalidade da tela, onde as mãos assumem personagens que se fundem com a natureza da sua própria matéria, que a magia de uma “aleluia”, num contínuo, confrontando as duas existências, nos fará transportar até à mulher paisagem, a mulher alada do pintor oitocentista Gauthier d’Agoty.
Já em Autodaphné, numa singular oração, a autora convoca o mito de Apolo e Dafne, desafiando-o, num interessante exercício de desconstrução através de um corpo de mulher em permanente confronto, primeiro com o seu próprio interior, depois com a estrutura que o contém, que o oprime, da qual se liberta para de novo se transformar, exaltando-se numa quase apoteose.
Vencido o medo, Andacht, exorta a libertação eterna do corpo, mas agora de um corpo feito homem, que luta silenciosamente com a sua própria natureza, num profundo consciente interior.
E por fim, num salto, penetrando no íntimo da criação, caminharemos sob uma longa meditação suspirada que nos conduz a um silêncio vigilante.
Outubro 2008
ZIGUD |
LA SUBSTANTIFIQUE *
Super 8 – 9’43 – cor – 1977
Talho por grosso.
Carcaças suspensas nos ganchos.
Peças de carne.
Que o olho acaricia fibra a fibra.
Para uma anatomia do desejo
Os talhantes «pequenas mãos» hábeis
acabam de preparar a vítima.
Esquartejamento regulamentar. Pôr a nu.
Facas, picadoras, serras,
Instrumentos
de conhecimento
de gozo
de morte
À vista da calma paisagem de carne da
«mulher alada» de Gauthier d’Agoty (século XVIII),
esfolada e com a musculatura delicadamente desfraldada.
Por uma anatomia do prazer.
Realização, Barbara Spielmann
Imagem, Sugeeta Fribourg
Cantos gregorianos, catedral de Milão.
* Da necessidade de chegar à medula, à substancia, à essência da
substancia (la substantifique moëlle) segundo Rabelais. |
ANDACHT *
Super 8 – 12’33 – cor – 1985
Exibição de um corpo nu (e glorioso)
Sobre fundo de silêncio.
Acompanhando a imersão na caverna do ferreiro
(interior do corpo, o «corpo de órgãos»),
lugar de metamorfose.
Toque do «âmago de violência» (Giacometti)
presente no coração do acto de criação.
Mistério da encarnação.
Travessia da carne reconhecida mortal (e não mortificada).
Ultrapassagem (o salto por cima).
Jubilação conquistada sobre o pavor.
Texto e realização, Barbara Spielmann
Imagem, Julien Pappé & Vítor Pomar
Dança, Nobu Taka Kichi
Improvisação musical, Elisabeth Gilly, 2005
* Do alemão. Postura interior. Recolhimento, meditação,
atenção permanente (vigilância). |
AUTODAPHNÉ *
16 mm – 12’ – cor – 1978
Dança decomposição/recomposição do corpo.
Corpo-conteúdo da mulher de vidro e
corpo-continente da mulher de carne,
uma animando a outra com a sua dança.
Exploração combinatória das relações
entre as partes,
as partes e o todo, o todo e o mundo.
A palavra, ritmada e ritmando musicalmente
o movimento da bailarina, luta contra
a petrificação e os buracos (negros) de silêncio.
Texto e realização, Barbara Spielmann
com
Patricia Brouilly, bailarina
A mulher de vidro (O. M. S. Genebra)
Erwin Huppert, imagem
Dominique Fano, som
Barbara Glowczewski, montagem, títulos, trucagem
Monique Bourroux
& Pascale Criton, improvisação musical
* Perseguida por Apolo, a ninfa Daphné, atemorizada,
transfigurou-se num loureiro. |
A VOL D’OISEAU,
LE SUICIDE N’EST PAS PERMIS*
Super 8 – 14’ – cor – 1981
Exploração de movimentos eróticos elementares.
Espaço calcorreado, atravessado, onde os diversos elementos
em presença – gruas, barcos, metros, feras,
etc... – passam, cruzam-se e entrecruzam-se num
movimento de vaivém e de oscilação
quase pendular.
Espaço vedado – grades, armações metálicas, barreiras – retendo
e decompondo o movimento.
Para melhor o exasperar.
Texto e realização, Barbara Spielmann
Improvisação musical, Annick Nozati
*O suicídio não é um caminho directo |